Homeschooling no Brasil: para onde está indo?

Homeschooling no Brasil: para onde está indo?

Tendências religiosas e desvios esotéricos

Julio Severo

Um proeminente blog presbiteriano publicou, em 5 de fevereiro de 2016 um artigo (veja: http://archive.is/kshbt) sobre tendências de homeschooling (educação escolar em casa) no Brasil. Ainda que eu discorde deles em questões conservadoras (eles se consideram conservadores, mas sua Universidade Presbiteriana Mackenzie, a maior universidade protestante do Brasil, contrata professores pró-aborto e marxistas), eles foram honestos o suficiente para me mencionar como um dos exemplos mais conhecidos de homeschooling no Brasil. Outros nomes ligados ao homeschooling mencionados, Josué Bueno e Cleber Nunes, foram também notícia em dois artigos escritos por mim em 2008. Esses artigos viraram manchetes internacionais:

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Solano Portela, o autor do artigo presbiteriano sobre homeschooling, não teve dificuldade de coletar nomes e casos de homeschooling no Brasil, pois eles são facilmente disponíveis numa mera pesquisa do Google, a qual geralmente dá como resultados meu nome e outros nomes.

Entretanto, de acordo com a ANED, um novo grupo que afirma ser proeminente no movimento de homeschooling no Brasil, só a ANED e seus membros merecem notabilidade no homeschooling brasileiro. O Dr. Alexandre Magno, o advogado da ANED, disse em sua página de Facebook no início de fevereiro:

“A educação domiciliar brasileira saiu da quase completa obscuridade há poucos anos para uma aceitação social praticamente unânime. Os grandes responsáveis por isso foram Rick Dias, presidente da Aned, e o casal Camila Hochmüller Abadie e Gustavo Abadie, do site Encontrando Alegria. A contribuição que essas três pessoas fizeram pela educação brasileira nunca pode ser subestimada.”

A essa declaração exagerada, minha resposta pública foi: “Alexandre, se obscuridade é ser foco de uma longa e importante reportagem da revista Veja, então não sei o que é obscuridade. Em 2001, o Pr. Rinaldo Belisario foi, juntamente com outras famílias, entrevistado pela Veja e também por várias emissoras de TV. Assunto: homeschooling. Isso não se parece com obscuridade.”

A experiência de homeschooling de Gustavo Abadie soma poucos anos, enquanto a experiência de homeschooling do Pr. Belisário equivale a mais de 18 anos. Além disso, Abadie era um pastor evangélico que, com sua esposa, escolheu se converter oficialmente para o catolicismo em 2014.

Muitos jovens evangélicos brasileiros têm passado por um processo de conversão “católica” depois de estudarem um curso de filosofia do filósofo Olavo de Carvalho, que tem vários livros publicados sobre astrologia (ocultismo) no Brasil. Eles começam o curso buscando uma postura antimarxista sólida e terminam como “católicos.” No caso de Abadie, não foi diferente: Antes de sua conversão, ele e sua esposa estavam frequentando “aulas de filosofia” de Carvalho.

Em outubro de 2013, quando Carvalho começou a me difamar porque discordei de sua manada pró-Inquisição, Abadie criticou em seu Facebook um homem que teria difamado Carvalho e imediatamente acrescentou que sua crítica era válida também para mim. Abadie disse:

“Um homem que se diz cristão e chamava até pouco tempo outro de seu amigo, agora quando o xinga de pústula e hipócrita, com certeza não é um cristão piedoso, mas assemelha-se a um rato do esgoto mais imundo.”

Alguém então lhe perguntou se ele estava se referindo a Julio Severo. A isso Abadie respondeu em seu Facebook: “Não é, originalmente, mas cabe-lhe o chapéu.” (Uma cópia desse post de Facebook foi salva para documentação.)

Depois de seu comentário grosseiro contra mim, ele desfez sua amizade comigo no Facebook. Eu nunca o havia difamado ou xingado. Pelo contrário, antes de sua conversão, eu havia publicado dois artigos em 2012 escritos pelo então pastor evangélico Gustavo Abadie contra o marxismo.

Ao que tudo indica, ele achou que a questão entre mim e Carvalho sobre a Inquisição me qualifica como “rato do esgoto mais imundo,” só porque discordei de seu “mestre” — adeptos e seguidores de Carvalho geralmente o chamam de “mestre.” Uma transformação muito grande: um alegado pastor evangélico tomando o lado de um católico radical que, com uma linguagem muito suja, habitualmente defende a Inquisição e habitualmente difama os dissidentes. É de admirar que num tempo muito curto ele tenha se convertido?

No entanto, apesar de tal incivilidade, Alexandre Magno e sua ANED insistem em que o homeschooling no Brasil era “obscuro,” mas que um ex-pastor evangélico e hoje militante católico o tornou famoso. Se isso não é grosseiramente exagerado, então o que é? Se não é auto-bajulação, então ao que é?

Uma pesquisa no Google sobre “Gustavo Abadie” dá não mais de 3 mil resultados. Veja: http://archive.is/w9whV (Nesses resultados, a única posição mais visível de homeschooling para ele é seu papel como palestrante na “Global Home Education Conference 2016,” que é um evento proeminente por causa de seu patrocinador, a Associação de Defesa Legal da Educação em Casa [Home School Legal Defense Association].)

Meu nome, que na avaliação de Magno seria “obscuro,” dá mais de 200 mil resultados.

A conta de Twitter de Abadie tem 114 seguidores (veja: http://archive.is/wQNdz). A minha, que seria “obscura,” tem mais de 10 mil seguidores (veja: https://twitter.com/juliosevero).

É com essa real obscuridade que Abadie tem sido empurrado para uma proeminência acima de pioneiros de homeschooling no Brasil.

O que inspiraria Magno a apresentar de forma inapropriada a realidade brasileira? Dias atrás ele disse em sua página de Facebook:

“Uma vez fui acusado de ser, como aluno do COF, influenciado pelo Olavo de Carvalho. Confesso que chegou a ser engraçado: que raio de professor de filosofia seria ele se não influenciasse (mais exatamente, ensinasse) seus alunos? E aí chamam de culto um curso onde um professor ensina e os alunos aprendem. Na cabeça de alguns, o contrário deveria ser o normal…”

Minha resposta pública:

Sobre culto, isso procederia se Olavo tivesse experiência e conexão com seitas. Espere — ele tem vários livros sobre astrologia (ocultismo). Ele foi o principal responsável pela propaganda e visibilidade no Brasil de René Guénon, um bruxo islâmico. Depois desse envolvimento pesado com o ocultismo, ele opta pela filosofia. Mas dá para separar o ocultista do filósofo? Tive uma experiência em 2013, onde de forma educada e discreta critiquei a Inquisição DEPOIS que pessoas ligadas ao Olavo começaram a defender essa máquina assassina, inclusive dizendo que nós evangélicos somos os cátaros modernos (para quem se lembra da história, os cátaros foram dizimados pela Inquisição). A resposta do Olavo, e seus alunos pró-Inquisição, foi fazer chover sobre mim fogo e fezes: xingando, difamando, etc. Bastava o Olavo postar um comentário ofensivo contra mim exclusivamente porque eu tinha opinião diferente, e seus seguidores curtiam à vontade. Experimentei então perguntar a alguns dos curtidores porque curtir um comentário ofensivo: a pessoa caiu em si, me pediu desculpas e disse que estava acostumava a curtir os posts do Olavo apenas por curtir… Isso é mentalidade de manada, típico de seita. Se não fosse o passado ocultista do Olavo, pensaríamos que tudo isso é mera coincidência. Mas o passado e o presente fazem parte de um quebra cabeça, onde tudo se encaixa. Por falar em Inquisição, o Dr. Michael Farris, que é o fundador da Home School Legal Defense Association, tem um livro que ataca a Inquisição. Eu sinceramente gostaria de ver o Olavo e sua manada irracional atacarem o Dr. Farris. Traduzi alguns trechos do livro do Farris, que se encontram aqui: http://juliosevero.blogspot.com/2016/01/ignorancia-da-biblia-corrupcao-do-clero.html

Anos atrás, um líder pró-família se encontrou com Magno, que prontamente disse que ele e todos os ativistas da ANED eram estudantes no curso de filosofia de Carvalho, onde a discordância não é tolerada, mas incentiva-se a difamação e ridicularização de opiniões diferentes.

Quando contestado em questões como a Inquisição, que ele publicamente diz é uma invenção de evangélicos dos EUA, Carvalho tipicamente ridiculariza e difama os discordantes, chamando-os de nomes obscenos. Magno tem publicamente “curtido” os comentários ofensivos de Carvalho no Facebook contra mim com relação à Inquisição. (Uma cópia desses posts de Facebook foi salva para documentação.)

Atitudes submissas e não-discordantes são marca registrada de seitas e fanatismo sectário e levam a conversões.

Tais conversões podem levar as vítimas a qualquer “paraíso” religiosa e politicamente correto escolhido pelo proselitista. Se ao estudar tão chamados “cursos de filosofia,” estudantes ou discípulos podem ser conduzidos ao catolicismo, e se o professor de filosofia (ou “mestre”) os conduzir ao ocultista islâmico René Guénon e outros feiticeiros?

Posso conviver com católicos em uniões pró-vida e pró-família. Aliás, tenho convivido com tais bons católicos por 30 anos, e nenhum deles estava envolvido na causa de defender ou desculpar a Inquisição. Eles estavam — inclusive meu bom amigo falecido Pe. Paul Marx — envolvidos em causas pró-vida. Mas agora, há indivíduos de boca suja que se autodeclaram pró-vida, mas que defendem a Inquisição e difamam os discordantes. Será que uma união à custa da civilidade pode prognosticar harmonia, especialmente ao desculpar a Inquisição, que mal dá para dizer que era uma instituição pró-vida? Será que tal união, sob a influência “filosófica” de um proselitista, pode promover um movimento de homeschooling saudável?

Obliterar grandes reportagens sobre homeschooling (a proeminente reportagem da revista Veja de 2001 é um exemplo) como “obscuras” porque não se encaixam na agenda de um grupo não é homeschooling real.

Empurrar, exaltar e fazer propaganda de indivíduos de um grupo acima de pessoas mais experientes que estão fora desse grupo não é ético, especialmente porque a “Global Home Education Conference 2016,” a ser realizado no Brasil em março de 2016 e em grande parte financiado pela Associação de Defesa Legal da Educação em Casa, deveria ser representada pelos melhores e mais originais líderes de homeschooling do Brasil. Mas isso não está acontecendo.

Ignorar e tratar como “obscuro” o Rev. Rinaldo Belisario e sua experiência de homeschooling (ele agora tem quatro filhos adultos educados em casa) para dar preferência a um ex-pastor evangélico que tem mínima experiência de homeschooling não é correto.

Se você pode ser proeminente e sair da “obscuridade” só se juntando a um grupo onde todos são basicamente influenciados por uma filosofia proselitista e você pode se tornar um católico ou esotérico ou católico esotérico, então isso não é homeschooling saudável. Isso se assemelha a uma seita.

Nesse sentido, não sei para onde o homeschooling brasileiro está se dirigindo, e estou preocupado com suas tendências religiosas e desvios esotéricos. Estou também preocupado com o modo como a “Global Home Education Conference 2016” pode dar poder e empurrar para a proeminência indivíduos brasileiros que, para avançar sua seita “filosófica,” querem tornar as experiências pioneiras e originais de homeschooling no Brasil tão obscuras quanto possíveis.

Versão em inglês deste artigo: Homeschooling in Brazil: Where Is it Headed?

Fonte: www.juliosevero.com

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