Os advogados e suas safadezas não mudam — palavra de Jonathan Swift

Os advogados e suas safadezas não mudam — palavra de Jonathan Swift

Julio Severo

Safadeza de advogados não é novidade alguma. O livro “Viagens de Gulliver” faz sucesso há mais de três séculos. Qual é a criança que nunca assistiu ao desenho de um homem gigante entre minúsculos seres humanos numa ilha? Há também filmes. Mas tanto desenhos quanto filmes, que retratam a riqueza da imaginação do autor, deixam de fora a figura do advogado. Sim, o advogado está muito bem presente no livro “Viagens de Gulliver,” de Jonathan Swift (1667-1745). Mas, ao contrário de muitos outros personagens retratados com qualidades fictícias, os advogados são apresentados exatamente como são. Pior: apesar da descrição ter sido feita mais de 300 anos atrás, não dá para notar mudança nenhuma desde então.

Quando li o livro de Swift muitos anos atrás, nunca mais me esqueci da figura do advogado, imortalizada por Swift em suas qualidades e profissionalismo a serviço da safadeza. Claro, sempre há as exceções, mas Swift apontou que mesmo na época dele, as exceções eram realmente raras. Um advogado é sempre um advogado. A seguir, o retrato que Swift fez dessa figura que teima em não mudar, com as devidas atualizações linguísticas feitas por mim, numa conversa em que o personagem Gulliver tem com um personagem da realeza:

— O número de advogados entre nós é infinito e ultrapassa o número das baratas. Eles têm entre si todas as espécies de títulos, de distinções e de nomes. Pelo fato de que o enorme número deles torna a profissão pouco lucrativa, recorrem à astúcia e às tramoias judiciais, para poderem sobreviver. Aprenderam, logo nos primeiros anos, a arte maliciosa de provar, com um discurso torto, que o preto é branco e o branco é preto.

— São estes homens que, com sua habilidade, arruínam e despojam os outros? — perguntou Sua Alteza.

— São, com certeza — respondi — e vou citar-lhe um exemplo. Se o meu vizinho quer ficar com a minha vaca, ele procura logo um advogado, e promete-lhe uma boa grana se puder fazer parecer que a minha vaca não é minha. Sou então obrigado a me dirigir também a um advogado para defender os meus direitos, pois a lei não permite que eu me defenda. Ora, embora de fato a vaca seja minha por direito, nem por isso deixo de me deparar com dois grandes obstáculos. O primeiro é que o advogado, ao qual recorri para defender a minha causa, está, pelo espírito de sua profissão, habituado desde a juventude a defender a falsidade, de modo que ele se sente como um peixe fora da água quando lhe digo a verdade nua e crua. O segundo obstáculo é que o mesmo advogado, apesar da simplicidade da causa que lhe entreguei, é obrigado a complicá-la e prolongá-la o mais que puder, conforme o costume de seus colegas de profissão. Do contrário, o acusariam de estragar a profissão e de dar mau exemplo.

— Daí, só me restam duas soluções para resolver o problema: A primeira solução é ir até o advogado do meu vizinho e tentar suborná-lo, dando-lhe o dobro do que esperava receber do seu cliente. Com um bom suborno, não é difícil fazê-lo pender para minha causa. A segunda solução é igualmente infalível. Tudo o que preciso fazer é recomendar ao meu advogado que faça uma defesa confusa, dizendo aos juízes que a minha vaca talvez não seja minha, mas do meu vizinho. É tiro e queda. Os juízes, pouco habituados às coisas claras e simples, ouvirão com gosto os argumentos matreiros do meu advogado e estarão com muito melhor disposição de julgar a meu favor.

— Um dos princípios dos juízes é que tudo quanto foi julgado, foi julgado muito bem. Assim, têm o máximo cuidado em conservar todas as decisões anteriormente tomadas, ainda que por pura ignorância e patentemente opostas à justiça e ao bom senso. Além disso, a atenção dos juízes volta-se sempre mais para as circunstâncias do que para a causa principal. Por exemplo: no caso da minha vaca, o que eles vão querer saber se ela é vermelha ou negra, se tem orelhas grandes; em que pasto costuma pastar; que quantidade de leite fornece por dia, e assim por diante. Feito isso, começam a consultar as decisões do passado. De tempos a tempos, eles tratarão da questão. Ficarei pois muito feliz se conseguirem julgar a minha causa ao final de dez anos! É preciso observar ainda que os advogados e os juízes têm uma linguagem especial, um jargão que é só deles, um modo de se expressar que ninguém mais entende. É nessa “magnífica” linguagem que são escritas as leis, que se multiplicam infinitamente. Vossa Alteza vê perfeitamente que, neste labirinto, a verdadeira justiça se perde facilmente e é muito difícil ganhar a causa mais fácil.
— É pena — disse Sua Alteza — que uma classe tão inteligente e talentosa não faça bom uso de seu conhecimento. Não seria melhor — acrescentou ele — que se ocupassem em dar aos outros lições de prudência e de integridade moral, e repartissem tal conhecimento ao público?
— Que nada! — respondi — Sabem apenas o que lhes interessa e nada mais. São os maiores ignorantes do mundo e são inimigos do conhecimento, e, nas relações normais da vida, são estúpidos, ranzinzas, enfadonhos e mal-educados. Não são todos assim. Só a maioria.
Adaptado por Julio Severo do livro “As Viagens de Gulliver,” de Jonathan Swift.
Leitura recomendada:

9 comentários sobre “Os advogados e suas safadezas não mudam — palavra de Jonathan Swift

  1. "Não são todos assim. Só a maioria." Texto interessante e reflete muito bem o que ocorre em nossa atualidade. Espero que, como servo de Deus e advogado, saiba sempre deixar de lado a hipocrisia que impera na profissão e prossiga para o alvo que é Cristo!Deus os abençoe.

  2. Uma irmã em Cristo, seguindo a sistemática de ensino fez ensaio no fórum de minha cidade. Ela ficou HORRORIZADA com a rotina da, vá lá, justiça ali praticada. Fico pensando quantos profissionais dessa área, bem como psicologia, antropologia, economia e outras, declarando-se cristãos, realmente serão salvos. Oremos. Antônio.

  3. O direito civil, por ser eminentemente dialético e pautado pela disponibilidade dos direitos, pelas partes, de fato é assim. No entanto, como um dos inúmeros "ramos" do direito, como ciência, mais tende ao que é privado que ao que é público. Não pode, portanto, ser julgado por todos os "ramos" do direito.Num dos Concílios católicos, há, inclusive, uma recomendação aos clérigos, que se abstenham de, nas horas de ócio, dedicar-se ao direito civil, porque, manejando, com dialética vertiginosa, argumentos contrários, acabam misturam o bem ao mal, isto é, pecando.

  4. Julio Severo, admiro seu trabalho e obra. Entretanto, esta á mais infeliz e leviana de todas as suas publicações. O texto é totalmente preconceituoso, e ofensivo à classe dos advogados. Profissionais desonestos existem em todas as profissões e esferas da sociedade. Tenho certeza que muitos advogados cristãos e honestos são seus leitores e merecem no mínimo uma nota de retratação com um pedido de desculpas.

  5. Os "advogados cristãos e honestos" não precisam de retratação, pois a carapuça não lhes serve. Portanto, não há do que pedir desculpas. O próprio Júlio Severo tem um conhecido ADVOGADO evangélico, incumbido de comentar, em entrevista gravada para a BBC, os pontos que levantou em um outro artigo seu. Logo, a crítica (que nem é dele) atinge a maioria dos advogados, não todos!

  6. Nós compreendemos sua indignação, Julio Severo. Nunca na história desse país as pessoas de bom senso e coerência (profissionais cristãos ou não) estiveram sob ventos tão impetuosos de ideologia anticristã e do “politicamente (in) correto”. Os advogados não inventam as leis. O problema é quando assistimos réus confessos encurralados pela Justiça, escaparem através de brechas na Lei indicadas por eficientes advogados. Mas, não é responsabilidade dos advogados fechar essas brechas imorais, apesar de legais. Assisti a um filme excelente sobre o tema: O Advogado do diabo (ano 1997, com Keanu Reeves). Recomendo. Porém, não dá pra aceitar que a vítima fique sem reparação, o criminoso seja inocentado e o advogado se sinta em paz com sua consciência após lograr êxito na “defesa brilhante” de um safado notório e reincidente. O réu confesso que pode contratar advogado a peso de ouro quer mesmo é escapar da punição e não garantir uma defesa justa, imparcial, etc. Ou seja, quer ter os direitos que ele negou à vitima. Ele não está nem aí para a justiça.O “bom” advogado para esses caras é aquele que após examinar o processo identifica erros capazes de anular toda a acusação contra seu cliente e, se possível, processar o Estado. E o que dizer da legião dos que advogam projetos contra a vida e a moralidade cristã (exaustivamente aprovada, consagrada, universal e milenar) em troca de indicações políticas… O criminoso e esses governos anticristão precisam de profissionais de mente cauterizada e com “estômago” forte para fazer a defesa apaixonada do “indefensável”, independente da acusação que pese contra o réu ou da sandice do projeto de lei. Essa combinação tenebrosa da fome (leis injustas) com a “vontade de comer” comprovam a declaração bíblica de que a justiça terrena é semelhante a trapos de imundície. Mas,o cristão identifica o conflito de interesse e não segue adiante nessa empreitada. Dispositivos tais como anistia, indultos, prescrição, progressão ou comutação de pena, foros privilegiados, recursos intermináveis, etc que frustram o direito de reparação da vítima e o clamor da sociedade por justiça já deveriam ter sido apagados de nossos códigos e enterrados no buraco da vergonha nacional.Acredito que se a MINORIA (cristã ou não) continuar a fazer o que é certo (e não o que é legal) as coisas mudarão. DEUS É FIEL. Não faltará trabalho. Porque “nada podemos contra a verdade senão pela verdade”. Do jeito que a coisa está, a lei de talião (olho por olho, dente por dente) soa cada vez melhor. Muda Brasil!DerrondZ

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