Julio Severo

Existe algum pobre nos EUA?

Publicado em assistencialismo, distribuição de renda por juliosevero em 13 de janeiro de 2012

Existe algum pobre nos EUA?

Igualdade, luta de classes e justiça social são bradadas como razões para a redistribuição compulsória de renda. Sempre houve uma desigualdade de riquezas nos Estados Unidos. A Bíblia chega a dizer que os pobres sempre estarão entre nós. Mas quão pobres são os pobres?
Até mesmo o princípio do Jubileu de devolver a terra aos seus antigos proprietários após 49 anos não é garantia de que os seus donos irão se sair bem quando a receberem de volta. (Lv 25:10-23; 27:21). Tenha em mente que o lucro que foi ganho pelas pessoas que detiveram a terra durante qualquer momento dos 49 anos continuará com elas. O que elas produziram na terra é delas. Apenas a terra é devolvida no 50º ano, não o lucro obtido dela. O antigo proprietário da terra poderia mudar de ideia no 51º ano e vendê-la de volta.
Essa lei, ao que parece, considera que os donos originais da terra a venderam porque, abandonando o princípio da remuneração diferida, queriam o dinheiro imediatamente, precisavam dele para pagar uma dívida, ou não queriam ou podiam trabalhar na terra. O devedor é certamente o servo ou escravo do credor, como colocam algumas traduções (Provérbios 22:7).
Existem diferentes níveis de iniciativa, risco e capacidade empreendedora no mundo. Jesus conta a parábola do homem que confiou determinada soma a três dos seus servos. Dois deles negociaram com o dinheiro e ganharam mais para o seu mestre, enquanto que o terceiro o enterrou na terra (Mt 25:4-30). Pela inação do terceiro servo, ele foi condenado pelo seu mestre. Deveria ter pelo menos colocado em um banco para render algum juro.
Há também a questão de como alguém se prepara para o futuro. Será que determinada pessoa aproveitou as várias oportunidades de melhorar seu nível educacional? Está disposta a trabalhar em qualquer emprego disponível, não importando o salário? É pontual no trabalho? Busca o crescimento profissional? Ou será que gasta todo o seu tempo e dinheiro? Trabalhar seis dias por semana em vez de cinco produz 52 dias a mais de renda por ano.
Os EUA eram um país cujo padrão de vida era incomparável. Os mais pobres entre nós, excluídos das suas terras natais, pobres como ratos de igreja, tinham chance nos EUA. Sim, havia preconceito e intolerância, e em algumas comunidades até mesmo um sistema de castas invisível, mas quem tivesse determinação podia se sair bem. Há uma longa história de empreendedorismo nos EUA que tornou ricos os mais pobres entre nós. Considere o seguinte:
- 43% das famílias pobres possuem casa própria. A residência média das pessoas classificadas como pobres pelo censo americano é de três quartos com um e meio banheiro, garagem e varanda ou quintal.
- 80% de todas as famílias pobres possuem ar condicionado. Em contrapartida, em 1970 apenas 36% de toda a população americana usufruíam de ar condicionado.
- Apenas 6% das casas de famílias pobres estão superlotadas. Mais de dois terços possuem mais de um quarto por pessoa.
O pobre médio nos EUA possui mais espaço de vida do que o indivíduo médio em Paris, Londres, Viena, Atenas e outras cidades da Europa (essas comparações são com os cidadãos médios nos países citados, e não com os classificados como pobres).
- Quase três quartos das famílias pobres possuem automóvel; 31% possuem dois ou mais.
- 97% das famílias pobres possuem televisão em cores; mais da metade possui duas ou mais.
- 78% possuem vídeo cassete ou DVD player; 62% possuem televisão via satélite ou a cabo.
- 89% possuem micro-ondas, mais da metade possui um aparelho de som, e mais de um terço possui lava louças. [1]
Essas estatísticas são de 2007. As condições econômicas mudaram, muitas delas devido a políticas estatais criadas para ajudar os pobres. Elas tiveram efeito contrário.
 “Compare a visão do pobre como apresentada na Bíblia (homens sem teto, cobertos de ferimentos, famintos, possuindo apenas uma túnica) às condições de muitos pobres nos EUA, e as distorções sociais das definições de pobreza se tornam patentes. Ser pobre nos EUA costuma significar “ter menos do que o vizinho” em vez de “carecer de recursos essenciais à vida”. [2]
Meus pais são filhos de imigrantes italianos. Minha mãe tinha 11 irmãos e irmãs. Inicialmente eles viveram na área rural. Lembro-me da minha mãe contando à nossa vizinha a triste história de que ela nunca teve uma boneca quando era criança. A vizinha se emocionou.
Meu avô materno queria dar aos seus filhos melhores oportunidades, e por isso trocou a fazenda da família por uma casa de três quartos no bairro de Carrick, subúrbio de Pittsburgh, Pensilvânia. Os meninos ficavam em um quarto e as meninas em outro. Todos eles prosperaram em carreiras e negócios. Eram eles pobres? Comparando com as pessoas que viviam em bairros mais nobres, como Mt. Lebanon e Squirrel Hill, sim. Mas comparando com milhões, talvez bilhões, de pessoas ao redor do mundo, eles eram ricos. A vida não era fácil. Havia poucos programas assistencialistas, e quando eles eram oferecidos, muitos recusavam a ajuda (assista ao filme A Luta pela Esperança).
Os distribuidores de renda estão facilitando o fracasso das pessoas. Não querem admitir que uma economia livre (livre das regulações opressoras, leis dirigidas e corrupção) faz subir todos os barcos. Os pobres são resgatados do seu apuro pelo empreendedor que cria riqueza e prosperidade onde nada havia há apenas 10 ou 20 anos.
Notas:
[1] Robert Rector e KirK Johnson, “How Poor Are America’s Poor? Examining the ‘Plague’ of Poverty in America”, Heritage Foundation Backgrounder, nro. 2064 (27 de agosto de 207).
[2] David W. Hall e Matthew D. Burton, Calvin and Commerce: The Transforming Power of Calvinism in Market Economies (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2009), 131.
Traduzido por: Luis Gustavo Gentil
Fonte em português: www.juliosevero.com

Reversão Demográfica Irá Acabar com o Assistencialismo Estatal

Publicado em assistencialismo, Europa, Grécia, pirâmide demográfica, social democracia por juliosevero em 28 de dezembro de 2011

Reversão Demográfica Irá Acabar com o Assistencialismo Estatal

Mark Steyn
Nossa lição hoje vem do Evangelho segundo Lucas. Não, não é sobre a manjedoura, os pastores, os sábios, nada disso, mas o outro nascimento:
“Mas o anjo lhe disse: Não temais, Zacarias;  Porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhes porás o nome de João.”
Esse pedacinho de história bíblica não recebe muita atenção, mas está lá: Lucas 1:13, parte do que chamaríamos de história prévia, se ele fosse um roteirista de Hollywood, e não um estudioso.
Dos quatro evangelhos, apenas dois se deram ao trabalho de contar o nascimento de Cristo, e apenas Lucas começa com a história de duas gestações. Zacarias fica surpreso com sua iminente paternidade: “pois eu sou velho, e minha mulher também está avançada em idade”.
Apesar de tudo, uma senhora de idade e estéril como Isabel concebe, e no sexto mês de gravidez, o anjo visita sua prima Maria e lhe diz que ela, também, irá conceber.
Se você ler o livro de Lucas, o nascimento da virgem parece uma extensão lógica do milagre anterior: a gravidez de uma senhora de idade.
O estudioso/autor não teve dificuldades em aceitar ambos. Para Mateus, o nascimento de Jesus foi um milagre; Lucas nos deixa com a impressão de que todos os nascimentos, toda a vida é de algum modo miraculosa e um presente de Deus.
Nós agora vivemos no mundo de Isabel; não só porque a tecnologia alcançou a divindade e permitiu que mulheres nos seus 50 e 60 anos se tornassem mães, mas também num sentido mais fundamental.
O problema com o avançado Ocidente não é que ele está quebrado, mas que está velho e estéril. Isso explica por que ele está quebrado.
Veja por exemplo a Grécia, que se tornou sinônimo de insolvência nacional: “Os EUA estão rumando para o mesmo destino da Grécia se não mudarem sua atitude”, etc.
Isso quer dizer que a Grécia tem problemas de gastos, de receitas, e algo nesse sentido, certo?
Em um nível superficial, sim. Mas a questão fundamental é bastante primordial: a Grécia tem uma das menores taxas de fertilidade do planeta. Na Grécia, 100 avós têm 42 netos; ou seja, a árvore genealógica está de cabeça para baixo.
Em um Estado social democrata onde os trabalhadores em profissões “de risco” (como, digamos, cabeleireiros) se aposentam aos 50 anos, não há jovens suficientes para pagar a aposentadoria deles de três décadas. E as próximas gerações terão mais problemas ainda.
Veja por outro ângulo: Os bancos são um mecanismo pelo qual as pessoas idosas com capital emprestam para jovens cheios de energia e ideias.
O mundo ocidental inverteu esse conceito. Se 100 velhinhos acumularem milhões de dólares de dívida, será que 42 jovens algum dia conseguirão pagá-la?
Como destacou Angela Merkel em 2009, o estímulo financeiro de Obama para a Alemanha estava fora de cogitação, simplesmente porque os credores internacionais sabiam que não haveria jovens alemães suficientes para quitá-lo.
A Alemanha, a potência econômica do continente europeu, tem a maior proporção de mulheres sem filhos na Europa: Uma em cada três jovens alemãs abrem mão da maternidade em caráter definitivo.
“A população economicamente ativa da Alemanha provavelmente irá cair 30% nas próximas décadas””, afirma Steffen Kroehnert do Instituto de Desenvolvimento Populacional de Berlin. “As áreas rurais estão vendo um declínio populacional em larga escala, e alguns vilarejos irão simplesmente desaparecer”.
Se o problema com o socialismo é, como afirma a Sra. Thatcher, é que mais cedo ou mais tarde acaba o dinheiro dos outros, o Ocidente avançou para o próximo nível: Acabaram os outros, ponto final. A Grécia é uma terra de cada vez menos consumidores e trabalhadores, mas cada vez mais aposentados e mais governo. Como é que dá para expandir a economia em um mercado em contração?
O primeiro mundo, assim como Isabel, está estéril. Coletivamente estéril, devo acrescentar.
Individualmente, ele está repleto de milhões de mulheres férteis, mas que infelizmente optam por não terem sequer um filho, ou terem um sob medida aos 39 anos. Na Itália, berço da Igreja Católica, a taxa de natalidade é de 1,2 ou 1,3 por casal, ou metade da taxa de reposição populacional.
Japão, Alemanha e Rússia já estão com crescimento vegetativo em declínio. 50% das mulheres japonesas nascidas na década de 70 não têm filhos. De 1990 a 2000, a porcentagem de mulheres espanholas sem filhos aos 30 anos dobrou, de pouco mais de 30% para quase 60%.
Na Suécia, Finlândia, Áustria, Suíça, Holanda e no Reino Unido, 20% das mulheres de 40 anos não têm filhos. Em uma recente pesquisa de opinião que pedia aos alemães que dissessem o número “ideal” de filhos, 16,6% disseram “nenhum”.
Estamos vivendo no mundo de Zacarias e Isabel, por escolha própria.
Os EUA não estão em uma situação tão perigosa, ainda. Mas o seu encontro com o apocalipse fiscal também tem raízes demográficas: A geração do pós-guerra não teve filhos suficientes para manter a solvência dos sistemas assistencialistas que surgiram na metade do século XX, estruturados com base nas taxas de nascimento daquela época.
A “década do eu [onde as pessoas queriam independência de casamento e filhos]” se transformou em “duas décadas e meia de eu”, e até mais. Os “eus” estão todos ficando velhos, mas não se deram conta de que pode chegar um tempo em que irão precisar de mais alguns “eles” para continuar alimentando o tesouro nacional.
A noção de vida como uma experiência de crescimento pessoal é mais radical do que parece. Durante a maior parte da história humana, as sociedades funcionais privilegiaram o longo prazo. Essa é a razão pela qual milhões de pessoas têm filhos, constroem casas, plantam árvores, abrem negócios, fazem testamentos, constroem belas igrejas em simples aldeias, lutam, e se necessário morrem pelo seu país.
A nação, a sociedade, a comunidade é um pacto entre passado, presente e futuro, no qual os cidadãos, nas palavras de Tom Wolfe no seu artigo The “Me” Decade and the Third Great Awakening: “concebe a si mesma, embora inconscientemente, como parte de um grande rio biológico”.
Boa parte do mundo desenvolvido saiu desse rio. Não é preciso fazer sacrifícios materiais: o Estado toma conta de tudo. Não é preciso ter filhos. E certamente não será preciso morrer pelo rei ou pelo país.
Mas uma sociedade que não tem nada por que morrer, também não tem nada por que viver. Não é mais um rio, mas uma poça estagnada.
Se você acredita em Deus, o argumento utilitário em favor da religião irá parecer insuficiente e simplista: “São narrativas úteis que contamos a nós mesmos”, como escutei uma vez de uma pastora frouxa ao defender sua posição sobre a Bíblia.
Mas se o cristianismo é nada mais do que uma estorinha “útil”, é uma estória perfeitamente bem construída, a começar pela decisão de estabelecer a divindade de Cristo no milagre do Seu nascimento.
Os hiperracionalistas devem pelo menos ser capazes de entender que o “racionalismo” pós-cristão entregou boa parte da cristandade a um modelo de negócio totalmente irracional: um esquema de pirâmide construído em uma pirâmide invertida. Lucas, um homem de fé e um homem de ciência, teria visto aonde isso iria levar.
Tradução: Luis Gustavo Gentil
Fonte em português: www.juliosevero.com
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